Relembre ‘Nostalgia, Ultra’, de Frank Ocean
Aos vinte e três anos, o então integrante do Odd Future lançou gratuitamente, via Tumblr, a mixtape que mudaria os rumos do R&B na década seguinte
(Seção Nostalgia, onde faço reviews de álbuns lançados no passado. Dessa vez, ‘Nostalgia, Ultra’, de Frank Ocean, lançado em 13 de fevereiro de 2011)
Antes de se tornar uma voz reconhecível, Frank Ocean escrevia músicas para outros artistas, sem ser creditado. Assinou trabalhos para Justin Bieber, John Legend e Brandy enquanto permanecia preso a um contrato com a Def Jam — e, dentro dele, quase invisível. Cansado da inércia do selo, decidiu agir por conta própria: em 16 de fevereiro de 2011, colocou Nostalgia, Ultra para download grátis no Tumblr. Foi um primeiro ato de rebeldia de uma carreira que, dali em diante, seria sinônimo disso.
No meio disso, além da carreira solo, Christopher Edwin Breaux, aka Francisco Oceano no Brasil, lidava com a ascensão meteórica da Odd Future, coletivo liderado por Tyler, The Creator. Entretanto, seu disco de estreia destoa da fúria adolescente que definia aquele grupo. Enquanto os colegas gritavam raiva, Ocean sussurra dúvida. Aqui, as faixas alternam composições originais — com produtores como Tricky Stewart, que assina “Novacane” — e releituras de canções alheias: “Strawberry Swing”, do Coldplay, que abre a mixtape; “There Will Be Tears”, de Mr. Hudson; e “Hotel California”, do Eagles, reimaginada como “American Wedding”.
Essas releituras, não soan nada como as homenagens. Ocean toma as canções para si e as reescreve totalmente, deixando somente a ponta do iceberg amostra: “Strawberry Swing” vira uma meditação sobre a inocência perdida, enquanto “American Wedding” — a faixa não lançada mais famosa da carreira dele e hit do projeto — transforma um clássico setentista numa narrativa breve sobre casamento e divórcio, comprimindo décadas de grandiosidade roqueira num relato íntimo e amargo. (Justamente por isso, muitos dos sampleados não liberaram o lançamento oficial do projeto. E até o vocalista e baterista do Eagles, Don Henley, disse que o novato não teria futuro… mal sabia.)
No centro, Nostalgia, Ultra é um disco sobre adiar sentimentos. “Novacane”, um dos grandes momentos do projeto, narra um encontro sexual com uma futura dentista que também atua no pornô e transforma a anestesia física em metáfora para a anestesia emocional buscada após uma perda. “Swim Good”, uma das poucas que chegou no streaming, projeta o mesmo impulso de fuga na imagem de alguém que dirige em direção ao oceano, tentando se afogar — literal ou simbolicamente — numa dor grande demais para caber dentro do carro. Já “There Will Be Tears” encara a ausência paterna e desmonta o clichê de que não se pode sentir falta do que nunca se teve.
Mesmo assim, nem tudo tem o mesmo peso dramático. “Songs for Women” mostram um Frank Ocean mais leve, carismático brincalhão, respondendo se só faz música para pegar mulher (para elas, diz que não; para os amigos, diz que é óbvio), enquanto “We All Try” condensa opiniões sobre aborto, casamento e religião num só verso, sem medo de dividir quem
escuta. Essa alternância de registros — entre confissão pesada e provocação bem-humorada — sustenta o disco ao longo de suas 14 faixas.
As produções, embora eficientes, raramente arriscam além do necessário: são discretas, funcionais, quase invisíveis. É a entrega vocal de Ocean que carrega o peso emocional, cantando “atrás” da base, sem enfeitar demais, fazendo cada linha soar mais como confissão do que como performance. Os interlúdios, batizados com nomes de jogos antigos como “Street Fighter” , “GoldenEye” e “SoulCalibur”, reforçam a sensação de fita pessoal, uma mixtape feita para um amigo específico, não para o mercado.
No fim, Nostalgia, Ultra foi — e é — um sucesso, mesmo sendo apenas o primeiro capítulo da trajetória de Frank Ocean. É o registro de um artista descobrindo, em tempo real, que a própria vulnerabilidade podia ser o material mais valioso que tinha a oferecer.



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