The Romantic, de Bruno Mars: água com açúcar da música!
Álbum solo após década é reconfortante, bem produzido e seguro demais
Fui convidado pela Warner a ir à festa de audição do novo álbum de Bruno Mars. Eu não sei quando esse tipo de evento foi criado, mas me parece novo. Ele consiste em juntar fãs, donos de fã-clube, imprensa e outros convidados em um bar e colocar o álbum para tocar em primeira mão duas ou três vezes.
Para quem vive na internet, com certeza já viu a festa de audição de Radical Optimism (2024), de Dua Lipa, que tem aquele momento esquisito que virou meme. É exatamente aquilo. E é uma baita experiência.
Mas, tirando essa breve introdução, feita exclusivamente para mostrar minha alegria de ter sido convidado para esse evento, vamos ao álbum.
The Romantic é o mais novo álbum de Bruno Mars, depois de dez anos sem um trabalho solo. Mas isso não quer dizer que ele estava de férias. Muito pelo contrário. Ele trabalhou bastante. Nesse meio tempo, tivemos um álbum inteiro ao lado de Anderson Paak, An Evening with Silk Sonic (2021), duas músicas entre as mais tocadas em 2024 e 2025, “Die With a Smile” e “APT.”, além dos vários shows no Brasil.
O disco tem nove faixas, 32 minutos e é a definição de filme “água com açúcar”, só que na música. Você provavelmente já ouviu esse termo em alguma conversa. Sabe aquele filme bobinho, tranquilo, geralmente uma história de amor que não tem muita profundidade, mas te faz sorrir? Aquela série que você coloca depois de um dia cansativo, que não exige tanto de você. Não te dá sono, mas também não te anima — tirando um ou outro capítulo. The Romantic é assim. Não é ruim, não é excepcional, é só... agradável, suave, um pouco nostálgico. Reconfortante.
Ainda é cedo para dizer se o disco vai ser esquecível ou se vai revelar hits escondidos com o tempo, mas uma coisa já dá para afirmar: é um álbum bom, bem produzido, totalmente com a cara de Bruno Mars — e essa familiaridade é tanto o charme quanto a limitação.
O álbum abre com “Risk It All” e “Cha Cha Cha”, que trazem uma sonoridade tropical diferente, inspiradas na terra natal do Bruninho. Trompetes de mariachi brilham, percussão latina pulsa, guitarras remetem aos anos 70. A primeira joga com romantismo clássico sobre base acústica decorada com metais que poderiam estar em qualquer festa de quinceañera. E a segunda, por sua vez, intensifica a energia, com Mars cantando sobre o quão apaixonado ele está — afinal o nome do álbum puxa pra esse lado. Mas é a partir da terceira faixa que o disco revela sua forma definitiva — mistura dessas latinidades com elementos de Silk Sonic, tudo embalado pela voz única do cantor, que continua sendo o ponto mais forte de qualquer coisa que ele faça.
“I Just Might” foi o único single do álbum, estreou em #1 em 11 países e é um dos principais destaques, principalmente pelo refrão que gruda na cabeça desde a primeira audição. Mas essa pegada não se mantém no restante do álbum. É engraçada, direta, totalmente charmosa — exatamente o tipo de coisa que Bruno domina.
A partir daí, o disco se acomoda numa zona de conforto: faixas como “On My Soul”, “Dance With Me” e “Something Serious” seguem a mesma pegada romântica e suave, sem picos de energia ou mudanças bruscas de direção. Isso se deve, em parte, à produção de D’Mile, parceiro fixo de Bruno desde Silk Sonic, e à escolha de Gabriel Roth para a engenharia dos metais, que trazem esse ar de sofisticação.
O disco encerra com “Dance With Me”, com cara de fim de festa e um pedido de última dança vindo do cantor. Depois de 32 minutos, fica claro que o projeto funciona, mas tem seus tropeços, especialmente nas letras genéricas. E, acima de tudo, o maior ponto aqui (podendo ser interpretado como problema ou virtude, dependendo de como você olha) é que não há um ponto alto. Todas as nove músicas existem no mesmo nível de qualidade elevada. Não tem nenhuma faixa fraca, mas também nenhuma que entre na prateleira junto das canções já consolidadas do cantor.
The Romantic é Bruno Mars aos 40 anos, completamente confortável com quem ele é e o que faz melhor. É o disco mais coeso da carreira dele, mas também o mais seguro, típico daquele filme água com açúcar que você tanto gosta.


